Ferrari revela a “macchina” do seu milésimo GP de Fórmula 1

Prestes a atingir marca inédita, equipe muda pouco o design do ano passado, e aposta na aerodinâmica da nova SF1000 para que os bons ventos lhe tragam a ressurreição

Ferrari revela a “macchina” de seu milésimo GP de Fórmula 1

A Scuderia Ferrari apresentou ontem a SF1000, máquina com a qual disputará o próximo Campeonato Mundial de Fórmula 1, que este ano completará 70 anos de história, e o milésimo grande prêmio da equipe. Como única marca em condições de celebrar a participação em todas as temporadas – e, desde já, a mais vencedora, também, com 15 títulos conquistados – a Ferrari batizou seu 66º carro construído exclusivamente para a categoria com as suas iniciais e o número comemorativo. E essa é só a primeira semelhança com o carro de 2019, que recebeu o nome de SF90 em celebração aos 90 anos de fundação da escuderia do cavalinho rampante, completados em setembro.

Em noite de gala, presidida pelo diretor da equipe Mattia Binotto, a SF1000 foi revelada no suntuoso teatro municipal da pequena Emilia Reggio, na região da cidade de Maranello, no norte da Itália, famosa por sediar o polo industrial da Ferrari e onde todos os seus carros são inteiramente produzidos, sejam de rua ou de Fórmula 1. Durante a cerimônia, ao lado de todo o staff da marca italiana e dos pilotos Sebastian Vettel e Charles Leclerc, o executivo que ascendeu profissionalmente dentro da equipe italiana lembrou uma frase do fundador Enzo Ferrari para resumir as emoções trazidas pelo marco histórico deste ano: “Dê a uma criança uma folha de papel e lápis de colorir, peça a ela para desenhar um automóvel, e ele seguramente será vermelho.”

O diretor da equipe Mattia Binotto entre os pilotos Charles Leclerc (e) e Sebastian Vettel

Assim que o cetim vermelho que cobria a SF1000 foi retirado, no entanto, a primeira impressão a todos os convidados e jornalistas presentes foi a de que o desenho do carro mantinha extrema semelhança em relação ao do ano passado. Apesar de reconhecer a similaridade estética, Binotto ressaltou que as aparências enganam. “Consideramos que este é o conceito certo para nós e fomos tão radicais quanto pudemos”, afirmou. “Melhoramos muito a aerodinâmica. Se você olhar nos defletores das laterais do cockpit, estão mais complexos. O chassi mais estreito faz com que o difusor traseiro funcione melhor e o downforce (pressão do ar exercida sobre o carro) certamente aumentou, de forma geral.”

Com um olhar mais apurado, realmente é possível notar que a parte final da cobertura do motor foi rebaixada tanto quanto possível, inspirada no desenho do carro da Red Bull, que muitos consideravam no final da última temporada passada como o melhor chassi do grid. Fora isso, as suspensões dianteira e traseira também foram completamente retrabalhadas. Em seu site oficial, a Ferrari deu mais detalhes sobre as mudanças aplicadas no carro deste ano.

Ferrari SF1000

A parte traseira do chassi da SF1000 é mais estreita do que a do carro de 2019, graças ao trabalho de otimização do formato e desenho externo dos componentes que ficam sob a cobertura do motor. A carenagem traseira rebaixada ajuda a melhorar pressão aerodinâmica sobre o carro, resultante do fluxo de ar mais limpo em direção à asa traseira.

O alojamento da caixa de câmbio foi reduzido de tamanho para permitir este formado mais estreito do chassi, ao mesmo tempo em que resulta no mesmo nível de refrigeração ao do carro anterior, apesar da diminuição do espaço disponível.

Ferrari SF1000

Com o objetivo de melhorar o nível de desempenho, foi dada grande ênfase em tornar o carro mais compacto e leve. Por meio do rebaixamento de alguns elementos do sistema de arrefecimento, foi possível também diminuir a altura do centro de gravidade do chassi, o que contribui para melhorar o desempenho de uma forma geral, mas especialmente nas curvas de média para alta velocidade. 

Ferrari SF1000

Os braços da suspensão dianteira de um carro de Fórmula 1 são muito importantes, não apenas em termos de dinâmica e estabilidade do veículo, mas também em relação à eficiência aerodinâmica, por fazer parte do caminho do fluxo de ar em direção à asa traseira.

Na SF 1000, ambos os parâmetros foram levados em consideração no projeto da suspensão dianteira. Particularmente, a atenção se voltou para a integração entre os pontos de fixação no chassi e dutos de freio para maximizar a pressão aerodinâmica, enquanto asseguram a refrigeração correta para os discos de freio e cálipers (pinças).

Ferrari SF1000

A secção do nariz da SF1000 resulta de um extremo desenvolvimento desta parte do carro do ano passado e apresenta uma saliência maior dos componentes que apoiam a asa dianteira.  Segundo a Ferrari, as mudanças buscam aumentar a pressão aerodinâmica.

Ainda de acordo com a equipe, a produção deste nariz provou ser uma pequena amostra da extraordinária capacidade dos engenheiros e dos técnicos de materiais compostos (leia-se fibra de carbono) envolvidas nesse interessante desafio, por conta da aprovação no crash test obrigatório – missão cumprida imediatamente.

Os “bageboards” são defletores montados verticalmente nas laterais do cockpit dos atuais carros de F1, que ajudam direcionar o fluxo de ar para áreas específicas do carro. As regras para esses componentes são as mesmas de 2019, porém na SF1000 eles ganharam formas mais complexas, refletindo o foco dos engenheiros na melhoria da eficiência aerodinâmica em cada parte do carro.

Ferrari SF1000

Em relação ao trem de força, as mudanças estão reservadas para o ano que vem, quando entrará em vigor um novo regulamento técnico da categoria. A unidade de força dos atuais carros de Fórmula 1 é formada por seis componentes principais: um motor de combustão interna – nesse caso, um V-6 de 1,6 litro, com turbocompressor. Conectado a ele, funcionam dois geradores, o MGU-K (Motor Generator Unit Kinetic, ou unidade de motor gerador cinética) e a MGU-H (Motor Generator Unit Heat, ou unidade de motor gerador térmica).

A MGU-K é descendente direta do Kers (Kinetic Energy Recovery System, ou Sistema de Recuperação de Energia Cinética), que recupera a energia gerada a partir da rotação dos discos de freio, convertendo-a em eletricidade, a qual pode ser armazenada nas baterias em uma carga máxima de 4MJ (ou 1.111 kWh). A MGU-H extrai a energia térmica do corpo do turbocompressor. Há ainda o conjunto de baterias, utilizado para armazenar a energia elétrica antes de ser aplicada no propulsor auxiliar elétrico conectado ao motor a combustão. O sexto componente é o controle eletrônico.

A transmissão semi-automática de oito velocidades também foi mantida, assim como os pneus com aro de 20 polegadas, que inicialmente seriam substituídos antecipadamente pelos de 21”, previstos no regulamento do ano que vem.  

Ferrari SF1000

E é com este carro que a mais tradicional e simbólica equipe do circo da Fórmula 1 espera quebrar o jejum de títulos que já se estende por mais de uma década. A última vez em que a Ferrari conquistou os mundiais de pilotos e de construtores foi em 2007, com Kimi Haikkonen – o único após a era Schumacher.

Fonte: Ferrari I Edição: Fábio Ometto I Imagens: Divulgação