Museu do 9/11 mantém viva a memória de vítimas e heróis dos atentados

Espaço instalado onde se erguiam as Torres Gêmeas abriga milhares de lembranças recolhidas dos escombros, incluindo as primeiras viaturas a socorrerem a tragédia

Museu 9/11 reúne veículos que preservam a realidade dos atentados

Vinte anos se passaram desde o fatídico 11 de setembro que marcou a história dos Estados Unidos e assombrou o mundo. Naquela manhã de terça-feira, a maior potência econômica do planeta despertou, atônita, sob uma sequência de ataques terroristas que utilizaram como mísseis quatro aviões comerciais sequestrados, repletos de combustível e lotados com civis.

Desviadas de suas rotas, depois de os terroristas assumirem o comando dos voos, duas aeronaves foram lançadas contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, na ilha de Manhattan, em Nova York, e outra sobre o Pentágono, sede do poder militar dos Estados Unidos, no estado da Virgínia. O quarto avião, redirecionado para Washington, capital do país, não alcançou seu objetivo, graças à investida dos passageiros contra os sequestradores, que, em resposta, arremessaram o avião ao solo.

9/11 Memorial & Museum

Em homenagem às milhares de vítimas fatais dos ataques de 2001 e do atentado a bomba no mesmo WTC, em 26 de fevereiro de 1993 – assim como, em reconhecimento à coragem dos sobreviventes e de todos os que arriscaram as próprias vidas para salvar as de outros -, foi construído no local antes ocupado pelas Torres Gêmeas um monumento à dignidade humana, bravura e sacrifício: o 9/11 Memorial & Museum. Vale lembrar que, em inglês, as datas são grafadas com o mês antes do dia – por isso, 9/11 -, ao contrário da forma usual em português.

Seis pessoas morreram e cerca de mil ficaram feridas após o atentado de 1993, quando uma van com 606 kg de explosivos foi detonada na garagem subterrânea da Torre Norte. Já nessa ocasião, o plano era fazer com que o prédio entrasse em colapso, trazendo abaixo também a Torre Sul.

Em 2001, dos 2.977 mortos deixados pelos três ataques, 412 eram profissionais de serviços de emergência na cidade de Nova York, entre bombeiros (com 344 vítimas), policiais e agentes da autoridade portuária (6), paramédicos e profissionais dos serviços de emergência (8).

9/11 Memorial & Museum

O 9/11 Memorial Museum foi inaugurado em 15 de maio de 2014, com a presença do então presidente dos Estados Unidos Barack Obama, e aberto ao público uma semana depois. Desde então, pessoas vindas de todos os 50 estados do país e de outras 175 nacionalidades já passaram pelo local.

O espaço convida o público a saber sobre os ataques ao WTC oferecendo uma combinação de arquitetura, arqueologia e história. Os visitantes acessam o museu passando por um pavilhão elevado sobre o memorial, o que, de acordo com os idealizadores do complexo arquitetônico, serve como uma ponte entre as lembranças dos tristes episódios ocorridos ali e a promessa de renovação através da reconstrução.

9/11 Memorial & Museum

Os ambientes do museu, no pavimento inferior, enfatizam a força do local e destacam os resquícios arqueológicos autênticos do World Trade Center original, que era composto por um conjunto de sete edifícios comerciais e de hotelaria, polarizado pelas Twin Towers (Torres Gêmeas), com seus 110 andares e 417 metros de altura, inauguradas em 1973.

A área ao ar livre do memorial é aberto todos os dias, com entrada gratuita. Já o recinto do museu abre cinco dias por semana, atualmente seguindo as medidas sanitárias de prevenção à Covid-19 adotadas em Nova York, como a exigência do comprovante de vacinação e do uso de máscaras. As visitas devem ser agendadas por meio do site do museu, onde também são adquiridos os ingressos, com preço de US$ 26 para adulto (cerca de R$ 137).

A coleção permanente do museu compreende um acervo sem paralelos, com mais de 70.000 itens, entre evidências materiais e testemunhos em primeira pessoa, que documentam fatos relacionados a vítimas, sobreviventes e socorristas.

Placa de trânsito recuperada do atentando a bomba de 1993

Essa placa de trânsito danificada foi encontrada por Justin Spivey na tarde de 26 de fevereiro de 1993. O estudante da escola de artes e ciências Cooper Union, e seu colega de classe, Gregory Miller, foram ver o que havia acontecido no WTC após as notícias de que um transformador explodira no local.

Assim que a dupla saiu da estação Cortland Street do metrô, encontrou uma cena de caos. Ansiosos por saber o que causou aquele desastre e desconhecendo que estavam invadindo uma área isolada pela polícia, os dois jovens recolheram duas placas de Stop (Pare) que encontraram jogadas por ali. Quando retornaram ao alojamento da faculdade no final do dia, descobriram que o desastre foi causado por um veículo cheio de explosivos, detonado por terroristas na garagem subterrânea da torre Norte.

Caminhão-escada nº (ladder), um dos primeitos a chegar ao WTC

O caminhão-escada nº 3 (ou ladder, em inglês) é um dos maiores artefatos em exposição no 9/11 Memorial Museum. Ele representa a bravura tragicamente interrompida das primeiras equipes de socorro que chegaram
às Torres Gêmeas logo após o primeiro avião chocar-se contra a Torre Norte, em 2001.

As equipes da 3ª Companhia do departamento de incêndio de Nova York (Fdny, na sigla em inglês), localizada no bairro de Village East, em Manhattan, próximo à área do atentado, rapidamente chegaram ao World Trade Center. O caminhão-escada da 3ª Companhia foi estacionado na rua West, próximo à Vesey. Liderada pelo capitão Patrick John Brown, a equipe solicitou a autorização para que seus membros (incluindo os que haviam acabado de encerrar o turno da noite) adentrassem na Torre Norte. Minutos depois, às 10h28, o prédio desmoronou e todos os 11 membros do caminhão-escada que estavam em seu interior não tiveram a chance de escapar.

9/11 Memorial & Museum

O veículo também foi atingido de forma irreparável pelos escombros das duas torres, fazendo com que sua cabine fosse arrancada e a parte dianteira inteiramente destruída. A traseira do veículo e a escada estão amassadas, queimadas e enferrujadas. Outras partes da carroceria mostram marcas de incêndio, derretimento e deformações.

Um parachoque e um painel de porta traseira foram removidos das ferragens e colocados em exposição como uma homenagem aos membros da 3ª Companhia. A inscrição “Jeff, nós nunca esqueceremos você!” foi pintada em um painel em referência ao bombeiro Jeffrey John Fiordano, um dos membros da equipe que perderam a vida na tragédia.

9/11 Memorial & Museum

Logo após os aviões atingirem as torres, as primeiras equipes de emergência estacionaram suas viaturas ao redor do perímetro do World Trade Center. Quando os dois prédios vieram abaixo, muitas pessoas buscaram por proteção jogando-se para debaixo desses veículos, enquanto outras entraram pelas portas destravadas, para escapar da nuvem de poeira e dos destroços que se espalharam pelas ruas ao redor.

A ambulância vista acima, também do corpo de bombeiros de Nova York, pertencia ao 17º batalhão e foi estacionada próximo às ruas Vesey e West. Também atingido pelos destroços, o veículo teve o capô dianteiro e a cabine completamente esmagados, enquanto as rodas dianteiras foram arrancadas. Por todas as partes do veículo são vistos amassados e deformações. A parte traseira exibe várias marcas de incêndio, como o grande buraco visto na porta lateral, assim como o interior do veículo, inteiramente consumido pelo fogo.

9/11 Memorial & Museum

O caminhão Engine 21 dos bombeiros foi despachado para o World Trade Center para atender a Torre Norte. A viatura foi estacionada na Vessey Street, debaixo de uma passarela, e os 11 membros da equipe liderada pelo capitão William Burke se juntaram aos esforços de resgate no prédio atingido pelo segundo avião. Eles forçaram a abertura das portas de um elevador no saguão de entrada, libertando uma mulher que havia ficado presa.

Eles prosseguiram até o 24º andar utilizando um dos poucos elevadores que continuavam funcionando. Mas logo após a Torre Sul ter desabado, Burke ordenou que sua equipe se retirasse do local. Só que ele mesmo não seguiu as instruções e ficou para ajudar duas vítimas. Poucos minutos depois, a Torre Norte também desabou. O capitão “Billy”, como também era chamado, foi o único membro da equipe do Engine 21 que não retornou para casa.

9/11 Memorial & Museum

Atingido pelos destroços do segundo colapso, o veículo foi retirado do Ground Zero, como é chamada a área onde ficavam Torres Gêmeas, e levado para a exposição permanente do museu, como um símbolo de heroísmo e sacrifício.

A frente do veículo mostra sinais de fogo intenso, inclusive dentro da cabine, enquanto outras partes da carroceria mostram deformações, marcas de incêndio e ferrugem.

9/11 Memorial & Museum

Membros da autoridade portuária de Nova York e do departamento de polícia de Nova Jersey (município vizinho à ilha de Manhattan, do outro lado do rio Hudson) se dirigiram imediatamente para o local. O oficial Richard Beatty partiu de sua base, na ponte George Washington, uma das várias ligações entre as duas cidades. Ele estacionou o carro de patrulha próximo às ruas Vessey e Church, e se juntou aos quatro colegas para ajudar na retirada dos civis da Torre Norte.

Quando o prédio desabou, Beatty conseguiu escapar, mesmo ferido, junto com outros três colegas. O oficial Bruce Reynolds, que estava socorrendo separadamente, não teve a mesma sorte. A porta da viatura, destruída após os desabamentos, foi recuperada das ruínas do WTC e mostra diversos amassados e arranhões, com a pintura danificada em vários pontos.

Porta da unidade de resgate Squad 1 do corpo de bombeiros de Nova York

Altamente treinadas e especializadas em buscas e resgates, dez equipes da unidade de serviço de emergência (ESU, na sigla em inglês) chegaram ao local dos atentados de 11 de setembro e usaram o caminhão Squad 1 como posto de comando. Seus oficiais estavam dentro da Torre Norte quando ouviram um grande estrondo. Era a Torre Sul desabando. Determinados a resgatar o maior número de vítimas, 14 deles perderam a vida quando o prédio em que estavam também veio abaixo.

Essa porta amassada e arranhada da unidade Squad 1 é parte da coleção do 9/11 Memorial Museum e serve para relembrar a bravura dos socorristas da ESU.

Missão cumprida: Honda CB750 Dream Bike foi totalmente restaurada

Mas o acervo sobre rodas do 9/11 Memorial & Museum não exibe só veículos destruídos e enferrujados. Há, também, preciosidades tinindo como novas, que remetem ao triunfo da reconstrução. Uma delas é a Dream Bike, uma motocicleta que carrega uma história emocionante. Aos 27 anos de idade, Gerard Baptiste, era um bombeiro lotado na 9ª Companhia do corpo de bombeiros Nova York, base dos caminhões-escada. Seus colegas de quartel o chamavam de Biscuits, por causa de seu hábito de carregar petiscos para cães, caso encontrasse com os passeadores pelo caminho.

Aficionado pelas duas rodas, em meados daquele ano de 2001 ele comprou sua primeira moto, uma Honda CB750, ano 1979, carente de uma boa reforma. Com a intenção de restaurá-la nas horas vagas, ele trouxe-a para o quartel em East Village. No entanto, sua condição precária também logo virou motivo de piada entre os companheiros de trabalho, que diziam que ele não teria tempo nem dinheiro sequer para dar a partida naquele motor.

Veio o dia 11 de setembro e Baptiste foi um entre as centenas de bombeiros que morreram em serviço. Em sua homenagem, os colegas de quartel abraçaram o projeto de restauração. Com o apoio de entusiastas de todo o país e da própria fabricante, o desejo de Baptiste foi transformado em uma moto memorial, chamada de Dream Bike – ou “moto do sonho”, traduzido para o nosso idioma.

9/11 Memorial & Museum

A “sete-galo” recebeu pintura predominante na cor vermelha dos bombeiros, com detalhes em branco. O distintivo da unidade Engine 33, que também perdeu parte de seus integrantes na tragédia, está pintado na lateral direita do tanque de combustível. No outro lado, a pintura foi adornada com uma cruz maltesa amarela e o logo do quartel Bowery U, uma das ruas do sul de Manhattan, próxima às Torres Gêmeas.

No alto da peça, outra cruz é rodeada por dez rosas, uma para cada membro das duas unidades que perdeu a vida na tragédia, além de dois capacetes, simbolizando as companhias 9 e 33. No centro da cruz foi inscrita a frase Lest we forget (Nós não esqueceremos), com a data dos atentados no alto, e o número 343, embaixo, número total de bombeiros mortos naquele 11 de setembro. Depois de fazer um giro por todo o país, a Dream Bike também foi integrada à exposição permanente do museu.

Harley Davidson America´s 9/11 Ride

Outro exemplar reluzente da coleção é essa Harley-Davidson Electra Glide Ultra Classic, que sintetiza o orgulho daquela nação. Dois meses após os atentados, Ted Sjurseth organizou uma caravana de motociclistas em homenagem aos mortos em 11 de setembro. Seu evento cresceu para o America´s 9/11 Ride, encontro anual no qual centenas de motociclistas se dirigiam até o local da queda do voo 193, na Pensilvânia, fazem uma parada no Pentágono e concluem a jornada no Ground Zero, onde ficava o World Trade Center, em Nova York.

Sjurseth pintou sua Harley Davidson com as cores da bandeira dos Estados Unidos, na qual foi inserida a imagem da Estátua da Liberdade sobre um campo coberto de estrelas.

9/11 Memorial & Museum

Os bagageiros na parte traseira trazem inscritos os nomes dos primeiros 417 socorristas mortos. Ao longo dos anos, muitos personagens dos resgates autografaram a moto, que exibe cerca de 40 assinaturas, incluindo as de Willy G. Davidson, neto do co-fundador da Harley Davidson, William A. Davidson, e do filho de Willy, Bill Davidson. A placa de licença da moto traz a inscrição Our USA (Nossos Estados Unidos).

Em razão do número crescente de motociclistas que se juntavam a cada ano, e de todos os problemas de trânsito decorrentes, o America´s 9/11 Ride teve de ser encerrado. No último evento, realizado em agosto de 2016, cerca de 1.500 motociclistas concluíram a viagem junto ao Ground Zero. Pouco tempo depois, Sjurseth doou a moto ao 9/11 Memorial Museum, onde é mantida em exposição.

9/11 Memorial & Museum

Uma das missões do National September 11 Memorial & Museum é manter a cerimônia anual de celebração às vítimas dos atentados. No último sábado, quando se completaram 20 anos da tragédia, as famílias se reuniram na praça do Memorial para ler em voz alta os nomes de todos os mortos nos ataques de 2001 e no atentado a bomba em 1993.

O programa teve início às 8h30, com a presença do presidente dos Estados Unidos Joe Biden e de seus antecessores, Barack Obama e Bill Clinton, entre outras autoridades. Ao longo da cerimônia, que se estendeu até as 13h, foram observados seis momentos de silêncio, como reverências aos momentos em que cada torre foi atingida, seus desabamentos, ao ataque no Pentágono e à queda do voo 93, na Pensilvânia. Algumas igrejas foram convidadas a soarem os sinos. O primeiro momento de silêncio foi feito às 8h46, hora exata em que o primeiro avião foi lançado contra a Torre Norte.

Tribute in light

Após o pôr do sol, o Tribute in Light (Tributo em Luz), também realizado anualmente, iluminou outra vez o céu, em celebração do aniversário dos ataques. A instalação de arte foi apresentada seis meses após os atentados de 2001 e, desde o ano seguinte, é repetida entre o pôr do sol e o amanhecer da noite de 11 de setembro.

Instalado sobre o telhado de um edifício garagem na margem do rio Hudson, as vigas de luz gêmeas alcançam a altura de quase 4,5 km e são compostas por 88 bulbos de xênon, com 7.000 watts, distribuídos em dois quadrados de 4,5 m² cada, refletindo o formato e a posição das Torres Gêmeas. Os fachos em direção ao céu podem ser vistos num raio de quase 100 km ao redor de Manhattan.

Como esperado, o Tribute in Light se tornou um símbolo icônico que, segundo seus criadores, homenageia todos os mortos nos atentados e celebra o espírito inabalável de Nova York.

Fontes: 9/11 Memorial Museum , Washington Post e Wikipedia I Tradução e edição: Fábio Ometto I Imagens: Reprodução da internet