Indy500: o “Homem-Aranha” escala a história

Brasileiro Castro Neves torna-se único estrangeiro a vencer pela quarta vez no oval de Indianápolis, glória que só quatro pilotos alcançaram em 110 anos da prova

O Olimpo da mais grandiosa corrida de automóveis do mundo tem um novo personagem. Após uma apresentação impecável, da bandeira verde à quadriculada, o brasileiro Hélio Castro Neves, da equipe Meyer Shank Racing-Honda, venceu no último domingo (30) a 105ª edição da 500 Milhas de Indianápolis, nos Estados Unidos, considerada o maior espetáculo do esporte a motor do planeta.

Ao conquistar o seu quarto triunfo na prova, ao longo de 21 largadas consecutivas, o piloto de 46 anos, natural de Ribeirão Preto (SP), entrou para a história do automobilismo mundial assim que cruzou a brick lane – a faixa de tijolos que marca a linha de chegada do centenário circuito oval de 2,5 milhas (4.002 m) –, ingressando como o único estrangeiro no seleto grupo com quatro vitórias na Indy500, disputada desde 1911, ao lado de A.J. Foyt, Al Unser e Rick Mears, todos nascidos em solo estado-unidense.

Ao saltar do cockpit do belo Dallara-Honda nº 06, pintado em preto e rosa, estacionado no meio da pista – após as 200 voltas mais rápidas da história da prova, completadas em pouco mais de 2h47min -, Castroneves (como passou a assinar desde que se estabeleceu nos Estados Unidos, para evitar que a imprensa local suprimisse um dos sobrenomes), novamente “foi pra galera” escalando o alambrado que protege as arquibancadas, comemoração que ele repete desde a sua primeira vitória na categoria, em 2000, quase sempre compartilhada pelos membros da equipe, e que lhe rendeu o apelido de Spiderman, o personagem dos quadrinhos conhecido no Brasil como Homem-Aranha.

Foi a senha para que as vozes dos 135 mil espectadores presentes no Indianapolis Motor Speedway – o maior evento com público pós-pandemia da Covid-19, até então – ecoassem feito uma só, como um grito de gol, para reverenciar a nova lenda da Indy500.

Campeão da prova em 2013, Kanaan largou em quinto e chegou na décima posição

Conforme antecipado por UNIVERSO MOTOR na apresentação da temporada de 2021 da F-Indy, em abril, mais dois “brazucas” participaram da 500 Milhas de Indianápolis deste ano.

Um deles é o também experiente Tony Kanaan, vencedor da prova em 2013, que foi contratado pela Chip Ganassi, campeã da Indy500 em 2020, para correr nas etapas em circuitos ovais em 2021 (alternando-se com a temporada da Stock Car), e largou da quinta posição.

Pietro Fittipaldi foi o melhor estreante no grid, com a 13ª posição, terminando no 25º lugar

E o outro é Pietro Fittipaldi, neto do multicampeão Emerson – primeiro brasileiro a vencer em Indianápolis e o campeonato da F-Indy, em 1989 – que fez sua primeira participação na Indy500 pela equipe Dale Coyne, e foi o melhor rookie (estreante) no grid, na 13ª posição.

O neozelandês Scott Dixon, campeão da temporada de 2020, largou da pole position

A pole position foi conquistada pelo neozelandês Scott Dixon, da Chip Ganassi-Honda, atual campeão da categoria e detentor de seis títulos da F-Indy. Largando do oitavo lugar, Castro Neves liderou apenas 20 voltas a caminho da sua quarta vitória na prova. O brasileiro chegou à liderança pela primeira vez no giro de nº 37, durante a primeira sessão de pit stops.

Valendo-se do menor consumo do motor 2.2V-6 biturbo da Honda, em relação ao equivalente da Chevrolet, e com uma estratégia precisa no planejamento e na execução pela equipe Meyer Shank, Helinho precisou de apenas cinco paradas para reabastecimento e troca de pneus (nas voltas 39, 78, 115, 150 e 172), contra até sete dos adversários. Na maioria das 200 voltas da prova, Helinho esteve sempre entre os sete primeiros colocados.

A bela domina a fera: safety car Chevy Corvette Stingray foi conduzido pela ex-piloto Danica Patrick

A corrida quatro teve duas intervenções do safety car, função que este ano coube ao Chevrolet Corvette Stingray, conduzido pela ex-piloto Danica Patrick e, como sempre, presenteado ao vencedor da prova.

Uma delas foi causada pela batida violenta de Graham Rahal (Rahal Letterman-Honda) contra o muro externo do circuito, na volta 119, após atravessar a pista por causa da roda traseira esquerda que se soltou do carro quando ele reacelerava no trecho de saída dos boxes, depois de um pit stop; na sequência do incidente, Conor Daly (Ed Carpenter-Chevrolet), que liderou a maioria das voltas da prova, com 40 no total, vinha a mais de 320 km/h e não teve como desviar da roda desgovernada que saltou à sua frente no meio da curva 2, acertando-a, por sorte, com o ponto mais extremo do bico do carro, sem resultar em qualquer dano. Fora isso, os boxes estiveram fechados por três vezes devido às batidas “solitárias” dentro do pit lane, protagonizadas por Stefan Wilson (Andretti-Honda), Simona de Silvestro (Paretta-Chevrolet), a única mulher no grid, e Will Power (Penske-Chevrolet), vencedor da prova em 2018.

Alex Palou, da Chip Ganassi, travou duelo espetacular com Helinho nas voltas finais e terminou em segundo

Depois do derradeiro e bem-sucedido pit stop na volta 172, Castro Neves foi devolvido à pista pela equipe Meyer Shank Racing em condições de buscar a vitória.

A partir de então, o brasileiro passou a disputar a liderança de forma espetacular com o espanhol Alex Palou, da Chip Ganassi-Honda, alternando a posição seguidamente com ele, em um duelo de tirar o fôlego durante as voltas finais da prova. Aproveitando a segunda posição para economizar combustível graças ao vácuo do líder, Helinho executou com sucesso o ataque ao rival na volta 198, reduzindo o tempo hábil para que Palou tentasse uma reação.

Vitória de Castro Neves foi a primeira da equipe Meyer Shank na F-Indy e a 14ª da Honda na prova

A partir dali, foram duas voltas que pareciam eternas em que Helinho conseguiu abrir distância, apesar dos retardatários logo à frente, para receber a bandeira quadriculada na primeira posição e escrever de vez seu nome na 500 Milhas de Indianápolis. Foi também a primeira vitória da equipe Meyer Shank Racing na Fórmula Indy, em sua quarta temporada na categoria. Reveja os melhores lances da prova:

Alex Palou terminou em segundo, com uma diferença de menos de meio segundo para Castro Neves, seguido pelo francês Simon Pagenaud, da Penske-Chevrolet, 0s070 atrás.

Tony Kanaan conseguiu 10ª e valiosa posição, logo atrás de Juan Pablo Montoya, bicampeão da Indy500, que retornou à prova conduzindo um dos carros da McLaren-Chevrolet. Pietro Fittipaldi terminou sua primeira participação na Indy500 como o 25º colocado – nada mal para quem, cinco anos atrás, assistiu à prova em uma cadeira de rodas, mal sabendo se poderia voltar a pilotar, depois de um acidente em Spa-Francorchamps, quando faria sua estreia no Mundial de Endurance (WEC), que lhe causou uma fratura exposta na perna esquerda.

Assim que cruzou a brick yard, a faixa de tijolos na linha de chegada, Castro Neves fazia a história

“Eu amo Indianápolis!”, comemorou Helinho. “Isto é incrível. Eu tive que levantar meus cotovelos para lutar aqui no final. A equipe Meyer Shank me deu tudo o que precisava para buscar a vitória. Muito obrigado ao Jim (Meyer) e Mike (Shank) por me darem esta chance, e aos patrocinadores por nos apoiarem. Foi ótimo ser impulsionado pela Honda hoje. Tivemos um carro incrível e a equipe fez um trabalho inacreditável. Eu não consigo acreditar nisso!”

Vale lembrar que as outras vitórias de Castro Neves na 500 Milhas de Indianápolis aconteceram consecutivamente em 2001 e 2002 – feito que apenas cinco pilotos conquistaram – e em 2009.

Fora isso, “Helinho”, como também é conhecido desde os tempos do kart no Brasil, é um dos raros casos de pilotos que venceram duas Indy500 nas duas primeiras participações, além do terceiro lugar, em sua terceira largada na prova.

Castro Neves é o primeiro piloto a vencer a 24 Horas de Daytona e a Indy500 na mesma temporada

E não bastassem todas essas façanhas, Helinho também passa a ser o primeiro piloto vencer na mesma temporada a Indy500 e a 24 Horas de Daytona – uma das mais importantes provas de endurance do mundo. Em janeiro, ele venceu a Rolex 24 Daytona de 2021, fazendo parte do quarteto de pilotos que conduziu o protótipo Acura ARX-05 (marca premium da Honda), da equipe Wayne Taylor Racing, ao primeiro lugar na classificação geral da prova.

Prova recebeu 135 mil espectadores nas arquibancadas, maior evento com público pós-pandemia

O próximo encontro da F-Indy acontece nos dias 12 e 13 de junho, nas ruas de Detroit, para a disputa da rodada dupla (7ª e 8ª etapas), com provas no sábado e no domingo transmitidas pela TV Cultura, ao vivo.

Fonte: Honda, Meyer Shank Racing e NTT Indy Car Series I Reportagem, tradução e edição: Fábio Ometto I Imagens: Divulgação e redes sociais