A história do Rolls-Royce psicodélico de John Lennon

Modelo Phantom V se tornou símbolo da contracultura por estampar na pintura multicolorida o espírito revolucionário do álbum ‘Sgt. Pepper’s' e do próprio Beatle

A história do psicodélico Rolls-Royce de John Lennon

Hoje se completam 40 anos da morte de John Lennon. Para celebrar a sua genialidade – que foi além da música e se estendeu a algo que particularmente nos interessa, os automóveis -, vamos lembrar a história do Rolls-Royce Phantom V mais famoso de todos os tempos, que se tornou um ícone das artes sobre quatro rodas.

Tudo começa em 3 de junho de 1965 – o mesmo dia em que o astronauta Edward H White deixou a cápsula da nave Gemini 4 para se tornar o primeiro estado-unidense a caminhar no espaço –, quando Lennon recebeu a entrega de algo muito especial. Era o Rolls-Royce Phantom V, com sua suntuosa carroceria pintada inteiramente em preto valentine black. Algum tempo depois, em mais um de seus arroubos de sinceridade, o Beatle disse que sempre quis ser um milionário excêntrico, e o Phantom poderia ser um passo importante em direção a esse sonho.

Lennon e o filho Julian posam ao lado do “Summer of Love”, em 1967

Lennon então personalizou o Phantom V ao verdadeiro estilo rock-star. O banco traseiro foi convertido em uma cama dupla, foram instalados televisão, telefone e geladeira, além de um toca-discos flutuante e um sistema de som customizado, que incluía um alto-falante externo.

Em abril de 1967, assim que as gravações do revolucionário álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band foram finalizadas, Lennon solicitou à fabricante de carrocerias J.P. Fallon, instalada em Surrey, nos arredores de Londres, para dar ao Phantom uma nova pintura. O trabalho foi, então, executado pelo artista local Steve Weaver, que cobrou 290 libras pela arte – algo em torno de cinco mil libras, hoje, o que equivale a R$ 34.200.  

Com a tinta ainda fresca, o Summer of Love (Verão do amor) como o multicolorido Phantom V passou a ser chamado, foi revelado dias antes do lançamento mundial de Sgt. Pepper’s, em 2 de junho, nos Estados Unidos, e incorporado como parte do conceito geral do álbum.

Imediatamente associada como um símbolo da contracultura que nascia junto com o lançamento do disco, a composição de cores é frequentemente descrita como “psicodélica” e as tonalidades, em particular o predominante amarelo, refletem a capa do disco que inclui a lisérgica faixa Lucy in the sky with diamonds, que faz referências ao uso da substância LSD, cuja sigla está subliminarmente inserida no título da música.

No entanto, ao olhar cuidadosamente, você poderá ver que não se trata de um caleidoscópio de cores dispostas aleatoriamente, mas, sim, de uma sequência de desenhos florais romanos – como os usados nos carroções dos ciganos e em barcaças fluviais -, com o símbolo de Lennon no zodíaco, libra, sobre o teto.

O Phantom V foi usado cotidianamente por Lennon até 1969. Antes da mudança na pintura, Lennon usou o carro em 26 de outubro de 1965, junto com os outros três Beatles, para se dirigirem até o castelo de Buckinham, para receberem da Rainha Elizabeth II para serem condecorados como membros da Excelentíssima Ordem do Império Britânico (MBE).

E, novamente, em 25 de novembro de 1969, o Phantom V reconduziu Lennon ao endereço real para devolver a comenda à rainha, em protesto, entre outras coisas, contra a guerra do Vietnã.

O Rolls-Royce foi levado para os Estados Unidos em 1970, quando Lennon se mudou junto com Yoko Ono para Nova Iorque, e desde então emprestado para vários outros astros do rock como os Rolling Stones, Bob Dylan e os Moody Blues.

Em dezembro de 1977, depois de um período recolhido na garagem, Lennon doou o carro em troca de US$ 250 mil em abatimentos de impostos para o Cooper-Hewitt Museum, subordinado ao Instituto Smithsonian, uma das atrações mais visitadas da capital Washington.

Quando o Cooper-Hewitt colocou o carro a leilão pela casa de leilões Sothebys´s, de Londres, em junho de 1985, o veículo foi vendido por US$ 2.299.000 – cerca de dez vezes mais do que era previsto -, para o magnata e bilionário canadense Jim Pattison.

Em 1986, após ser exposto em uma série de eventos, como a Feira Mundial daquele mesmo ano, realizada em Vancouver, no Canadá, o Phantom V de Lennon foi presenteado por Pattinson ao próprio governo canadense, que a partir do ano seguinte o manteve em exposição o Museu Histórico do Transporte, em Columbia. Após o fechamento da instituição, em 1993, o carro foi transferido para Museu Real Britânico de Columbia. Porém por ser grande demais para ficar exposto na coleção permanente do museu, o carro era mantido na maior parte do tempo em um depósito.

Em 2015, para celebrar o 50º aniversário de lançamento de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a Rolls-Royce trouxe o Phantom V de volta à sua terra natal para se juntar à exposição “Os Oito Maiores Phantoms”, na casa de leilões Bonhams localizada na New Bond Street, uma das áreas visitadas por Lennon regularmente no final dos anos de 1960, no mesmo carro.

Levado de volta ao depósito do Museu de Columbia, no Canadá, finalmente, em janeiro deste ano, o Summer of Love ganhou um espaço permanente para exposição, digno de sua longa e sinuosa história.

Fontes: Rolls-Royce, Forbes e Rolling Stone I Tradução e edição: Fábio Omettto I Imagens: Divulgação e reproduções da internet